Confessional

Já faz quase dois anos. Um ano e meio, talvez. E ninguém mais sabe, além de um amigo que me escutava ontem, pelas duas da madrugada. Não é daquelas coisas que a gente conta sorrindo entre uma lambida e outra no sorvete que seguramos só com o indicador e o polegar – porque os outros dedos, melados, estão grudando e incomodam – enquanto a outra mão tenta arrancar o guardanapo daquela caixinha na sorveteria. É história de se contar baixinho, com longas pausas pra respirar. E então, ontem, enquanto a noite esfriava nossos narizes, eu contava do meu fantasma praquele amigo, que tinha nos seus porões assombração parecida.
Talvez ele fosse o missionário mais dedicado que eu conheci. Se você reparasse bem, veria que os botões de sua blusa estavam lá cuidadosamente arranjados pra chamar atenção pro Evangelho. Cada detalhe ele planejava com perfeccionismo. E colocava pra tocar o que não gostava, sujava sua camisa nova, gritava no meio da rua. Tudo pra que alguém, de qualquer ritmo, perfume ou surdez, ouvisse as Boas Novas. Aquele moleque tinha olhos que sorriam.
Por vezes o encontrei ridiculamente feliz não mais aguentando o peso do corpo de uma noite passada em claro e de muito tempo sem comer orando, pregando, cantando. Ele andava cansado, mas nunca o via tão forte. E tão contente. Hora ou outra ele desistia de mais um sonho pessoal por seu amor aos sonhos que o seu Senhor tinha lhe dado. E o sabor de cada renúncia era o de mil sonhos realizados. Inacreditável. Vivia insatisfeito consigo mesmo, mas plenamente em paz com a sua condição incompleta. Sabia que Aquele que o transformava terminaria a reforma no tempo certo.
Falando daquele menino na última noite, volta e meia eu sorria com o canto da boca, admirando-o. Meu amigo me ouvia e balançava a cabeça concordando comigo – calado ou sem palavras – a cada frase, a cada pausa. Mesmo assim, eu falava era da mancha que fiz, há um tanto mais de um ano, na camisa branca daquele moleque. Mais uma daquelas coisas de se arrepender depois que a gente humano sempre faz. E quando chega esse depois, a gente precisa contar pra alguém, pra desaguar.
Enfim, eu tinha matado o menino. Um menino incrível. Eu sei que as pessoas que eu amo hoje, ele fez muito mais feliz. Ou faria, se tivesse conhecido todas elas. Mas onde quer que eu tentasse construir a minha vida, ele ocupava o espaço. Seria impossível com ele sempre ali.
Eu imagino que aquele missionário nunca teria tudo o que eu posso conseguir. E eu acabei ficando com a sua querida, que ele amou tanto e por quem tanto foi amado. Fiquei com seus amigos, com seus melhores amigos, com todas as suas coisas. Perdi, porém, seu amor pelo seu Deus, sua paixão pelas pessoas e sua paz, a tal paz inexplicável dada por aquele Homem que se pendurou na cruz pelos outros. Não fosse o suficiente, descobri na minha tristeza dos últimos dias que, apesar de ter ficado com quase tudo o que era dele e conquistado ainda coisas mais, nada preencheu o buraco que abri quando o matei. Eu queria mesmo é ser aquele moleque. De novo.
– Graças a Deus, ressuscitar faz parte do Reino em que ele viveu.
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6 Respostas para “Confessional

  1. Sensacional, como sempre, né, Pablo. O que você faz com a gente nos primeiros parágrafos, onde não se consegue parar de ler? Tudo para tentar descobrir o certo Alguém… Lindo. Parabéns.

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