Quase gay

– Quantas vezes você viu seu pai assim, andando na rua com um amigo. Dois homens lado a lado como a gente?
– Nenhuma.
– E, se visse, o que pensaria?
– Gay.
Pois bem. A ideia do pai foi só o resumo da imagem que eu queria usar, não importando o parentesco. Amigo velho, quando ouviu, imaginou na hora, desconsiderando o atributo familiar, um homem de uns quarenta acompanhado de outro. Exatamente o que quis dizer, ele entendeu. E não por outro motivo citaria o pai que ele já não tem.
– Merda, cara.
– Que foi?
– Estamos envelhecendo.
Desde que saímos da padaria com um fandangos grande e uma coca-cola eu pensava nisso. Estamos envelhecendo. Temos mais ou menos vinte anos os dois. Ele mais, eu menos.
– Cadê o troco?
– Droga, pera aí.
A padaria ficava numa grande avenida de cidade pequena, por onde caminhamos. Descemos uma escada ao lado da locadora de filmes e saímos na rua que terminava quase perto da pracinha bem perto da igreja Maranata. Nessa rua que eu perguntei sobre a cena do pai. E continuei:
– Nossa amizade vai acabar, velho – um exagero metafórico, claro. Rimos os dois. – Tá ficando gay.
– É, cara. Os homens passeiam com suas famílias.
– Pois é. Parecemos um casal gay. Homens, mesmo jovens, andam em bando, ou sozinhos, ou com namoradas. Dois como nós? Gay. Quer dizer que, com o tempo, os amigos param de saír à toa assim.
Sentamos na escada da pracinha. Relativamente longe um do outro. Pernas abertas e corpo encurvado, como homens se sentam. Tudo bem que comíamos como meninos, além de comermos comida de meninos, mas sentamos como homens.
Comíamos, bebíamos coca-cola e conversávamos.
Me levantei pra jogar o pacote de fandangos e outras coisas na lixeira. Eu ainda estava de costas e não me virei quando ouvi. Era um som mais do que familiar. Como um jingle de natal, algo que te traz boas lembranças. Alto e contínuo. E um pouco grave no início. Muito bem executado e de boa duração.
No meio do arroto, percebi certa hesitação do meu amigo. Ele desafinou um pouco. Eu permanecia de costas até então e, quando me virei voltando da lixeira, vi a menina. Segurei o riso com muito esforço e pouco êxito.
– Quando eu vi, já tava no meio.
– É, percebi que o som tremeu um pouco. Mas foi muito bom.
– É. Eu pensei “de qualquer forma, ela já vai me achar um porco por estar arrotando, parar no meio não vai adiantar nada. Pelo menos, eu sou o porco que arrota muito”.
Gargalhamos o resto do riso que tínhamos tentado segurar.
– E agora não somos um casal gay. Pelo menos pra ela.
Ficamos mais um tempo na pracinha. Bebemos o tanto de coca que enviuvou do fandangos e fomos embora. Eram uns quarenta minutos de caminhada até nossas casas, mas tínhamos tempo, então levamos quase uma hora. Falamos de outras tantas bobagens e de palavras eternas e, no fim de uma longa subida, retomei o assunto:
– É a declaração mais gay do dia, mas, se quando formos velhos, ambos ficarmos viúvos, mudo pro lado da sua casa.
Rimos lembrando.
– Como a história do meu avô e o amigo dele?
– Isso mesmo. Quase gay.
{Dessa história, passei a pensar no porquê de alguns religiosos usarem a amizade de Davi e Jônatas, descrita nos dois livros de Samuel, como argumento na defesa da homossexualidade. Cheguei à conclusão de que observar a tão forte relação entre aqueles dois amigos sob as perspectivas de amor fraternal, lealdade, masculinidade e heterossexualidade majoritárias brasileiras, pode levar à ideia equivocada de uma relação homossexual entre eles. O que é completamente ingênuo de se fazer, sabendo que o texto bíblico trata de um contexto sociocultural judaico antigo, muito longe do nosso tempo, espaço e visão de mundo. Se você percebeu o humor do texto, é impossível discordar do que acabei de dizer.}
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