De brinquedo

– Volte aqui e me peça perdão!
Ela parou, entendendo minha brincadeira. Pensou um pouco e deu um passo enorme. Parou a um outro passo enorme de mim. E ficou. Fez planos por um minuto e começou a brincar de imitar-me. Se eu me virava, ela também. Se balançava a cabeça, no ato, repetia. Se falava, seguia cada movimento dos meus lábios. Abri o zíper da bermuda – um desafio, por que não? – e ela apenas o fingiu. Esperta.
– Seu azar é que sou um dos caras mais pacientes que conheço – me sentei na calçada.
Eu esperava que ela viesse pedir o tal perdão.
Ela também se acomodou no cimento quente, debaixo do sol de quase meio-dia. Um livro que trazia na mochila foi minha carta na manga. Comecei a ler. Passamos uns belos quinze minutos naquela “trincheira”. Inteligente, ela se levantou de onde estava e sentou-se à sombra. Eu continuei com Lloyd-Jones e a teimosia no mesmo lugar.
Voltávamos de uma pracinha onde sentamos pra conversar quando ela brincou de me rejeitar e eu brinquei de exigir-lhe desculpas. E daí seguiu-se a cena que acabei de narrar. Eu esperava que ela terminasse a brincadeira, voltando com um arrependimento também de brinquedo e um sorriso generoso até onde tinha me deixado com a falsa cara de bravo. E então me beijasse. Tudo como de costume. Mas não foi.
E então, um tempo depois – que pareceu muito maior pra mim, sob o sol – ela se levantou e, passando por mim, convidou duas vezes “vamos?”, mas não parou – parar ao meu lado seria o pedido; disfarçado, mas compreensível pra nós.
Deixei que ela fosse e fiquei mais um pouco. Estávamos próximos a uma esquina e eu a imaginei me esperando lá, escondida, mesmo que eu demorasse, ensaiando um susto – bem, na verdade, eu considerava fortemente que ela poderia simplesmente ir embora, por imaginar o que ela desenhava na mente. E foi assim.
Quando eu cheguei à esquina, ela já estava longe. Caminhei um pouco, e ela olhou pra trás. E parou ao me ver.
– Você não pode me deixar assim. Ia sozinha pra casa?
– Sim.
– Por quê?
– Você precisa aprender a ceder.
Aquilo parecia ridículo, era só uma brincadeira. Mas, a essa altura, eu já tinha percebido que na cabeça dela nadavam os mesmos peixes que na minha. A gente aprende brincando desde moleque.
– Mas você não podia esperar que eu cedesse.
Ela concordaria comigo, como fez. Minha amiga sabia que o amor não é egoísta e que, me amando, deveria ceder mesmo estando certa e sem esperar de mim.
– Mas, te amando, também não poderia deixar que você continuasse assim.
Assim, sem nunca ceder – era o final da frase que ela não precisava terminar, mas o fez. Mas o tom da voz que ouvi era doce. E, naquela fala, morava um amor imenso de querer meu bem.
A explicação era longa, mas pra dois amigos assim, era só a confirmação do que um já tinha lido no outro.
E conversamos a respeito. Não cedi sentado sob o sol; queria que ela o fizesse pelo mesmo motivo que ela o quis de mim. Mas Alguém achava que era a minha vez. E, nas contas que fiz, era mesmo.
Uma honra.
– publiquei assim mesmo, ainda que achando sem gosto o texto, por não conseguir mais reescrevê-lo.
Anúncios

Deixa um comentário para a posteridade

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s