Cara de mau

Tchau, eu amo você – deixei minha querida no portão, corri até o fim da rua e comecei a descer as escadas que davam na avenida em que eu pegaria o ônibus. No meio da escada percebi que o ponto não estava vazio e que eu não estava atrasado. Diminuí o ritmo. Numa outra vez, eu quase quebrei o pé saltando os degraus e agora não precisava de pressa. Desci calmamente e sorrindo. Tínhamos acabado de chegar de um culto em que uma igreja batista e uma presbiteriana se reuniram para orar uma pela outra. E eu estava feliz em ter presenciado aquilo.
Eram umas seis pessoas no ponto de ônibus. Não contei. Duas delas estavam de pé perto do meio-fio. Ou dois. Eram homens. Jovens. Dois jovens pretos. Um se acolhia dentro de um grande boné de aba reta e um moletom aberto, sem capus e com a gola pra cima. O outro tinha capus no moletom – mas não usava – e brincos de um metal brilhante em ambas as orelhas, daquelas argolinhas justas, que nem pirata. Eu não era melhor vestido, mas eles estavam de cara fechada e eu, ao menos, simpatiquinho. Para nossa sociedade generosa, “cavalheiros de aparência peculiar, de círculo social distinto e de feitio duvidoso” – como um bom e polido preconceito enunciaria. E eu li, desse jeitinho preconceituoso mesmo, o texto que os panos sobre os corpos daqueles dois escreviam em costuras e cores.
Pontos de ônibus são assim. A tiazinha de cabelo branco com cara de assembleiana segurando uma sacola grande e falando de escatologia; a moça com uniforme da loja voltando do trabalho; o gordinho – suado, no calor, ou com uma jaqueta forrada de lã por dentro, no frio; a turminha voltando da escola, da facul ou do cursinho; e, vez ou outra, uns dois ou três pagando de chefes da máfia – e eu, tentando lembrar quando era que o Dom Corleone pegava o ônibus n’O Poderoso Chefão.
Os dois que eu olhava eram do último grupo: os mal encarados do ponto de ônibus. Eles tinham cara de maus, pose de maus e um tom de voz mau numa conversa sorrateira de maus. E eu olhava-os esperando algo que me rendesse um paragrafozinho sequer – mentira – quando eles me acertaram com um olhar – adivinha? – mau. Foi aí que, no meio daquela cena gângster, um virou pra trás, num gesto mau, avisando:
– Mãe, a gente vai ali rapidão, tá?
E BANG! Eu tive que sair de perto pra rir, sem parecer maluco, de toda aquela maldade.
Preconceito, às vezes, é uma piada – eu espero que você me entenda – que a gente aprende sem perceber e sustenta por burrice.
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