Pastora

– Aquele é o seu chefe?
– É.
Eu ando procurando emprego. Quero fotografar e fui logo num lugar em que se faz isso. Não sei se chamo o tal estabelecimento de loja, estúdio ou agência. É um lugar. Eu não tenho câmera, fotografo por gosto e com o que dá. Mas fui lá onde um amigo meu começou a trabalhar faz pouco tempo. Ele começou sem saber nada como eu, então achei que seria um bom lugar pra ir. O homem fotografava a esposa enquanto eu conversava com meu amigo.
– Oi – simpatiquei.
– Ôi.
O oi do indivíduo foi tão ruim que escrito precisou do circunflexo. Dava oi crespo. Olhava crespo. Deve ter dormido debaixo da cama.
– Eu conversei com o meu amigo que trabalha aqui e deixei umas fotos minhas. Ele disse que você olhou, mas que sua sobrinha poderia vir trabalhar com o senhor e que, caso não viesse, você me ligaria.
– Não, não tinha ninguém vindo trabalhar aqui não. – e ameaçou de morte meu amigo, lá na outra mesa, com aqueles olhos farpados.
– Ah, tá – tentando engolir minha última fala.
– Você sabe fazer o que?
Pra não dizer um nada, eu falei um pouco.
– Um pouco de fotografia, um pouco de filmagem, um pouco de edição. Em julho eu fiz um curso de algumas horas de fotografia e cinema com um fotógrafo e cineasta chamado Alyson Montrezol, conhece?
– Acho que já ouvi falar – se manifestou a esposa dele, que parecia um pouco melhor-dormida.
– E quais programas você sabe mexer?
– Um pouco de photoshop, um pouco de premiere, um pouco de corel.
Depois, em casa, fiquei me perguntando por que eu falei do corel. Que diabos o corel faria de diferença no tratamento das fotos? Ele perguntou mais uma lista de editores de imagem intuitivos que, pra mim, são sempre a mesma coisa, desde que se encontrem os botões certos e, se preciso, saiba um pouco de inglês. Mas eu nunca trabalhei com nenhum deles e não ia mentir.
– É, mas não estamos podendo contratar agora – resmungou. Senti até um pouco de pena dele, que não conseguia ser agradável nem por um segundo no tom da voz. Era alguma deficiência, eu acho.
– Tá bom, eu vou nessa. Qualquer coisa, ele me conhece – fiz com a cabeça na direção da mesa do outro lado da sala.
– Deixa seu telefone pra gente – disse a mulher, que agora era o alterego do marido com toda aquela gentileza saída do armário num pulo só – qualquer coisa a gente te liga – sorrindo até.
Poxa, legal ela – pensei. Sabia que era só uma forma simpática de dizer não ao meu pedido, mas pessoas legais são essas que dizem coisas chatas fazendo a gente sorrir. Me sentei na mesa dela para deixar meu contato como me pediu – ela estava em pé, ao lado do marido que trabalhava numa outra mesa perpendicular à que eu me sentei. Talvez você tenha entendido que me sentei à frente dela, por isso quis esclarecer. E, na verdade, eu nem faço ideia se aquela mesa era mesmo dela.
– Anotei aqui. Meu nome, telefone e email. Vou nessa, obrigado.
O homem me olhou daquele jeito amargo e azedou um tchau. A mulher alargou um amistoso sorriso, se despedindo, e:
– Vota em mim!
F1.4, 2seg, 6400 – mais claro, impossível. Cegante.
– Ah, tá. Me mande suas propostas – falei. – Vaca – pensei.
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