Amanhã

– Amanhã, dia dezessete.
– É – concordou a minha querida.
Um beijo meu em seu rosto.
Nem fizemos conta de que seria uma segunda-feira. Apenas queríamos nos casar. A senhora que nos ajudava a preparar a cerimônia era tão atenciosa que parecia de mentira. Na verdade eu nem sabia seu nome, mas o carinho era daqueles de amizade antiga. Nos recebia numa sala na cobertura de sua casa, que tinha uns três ou quatro andares. Não me lembro.
Saí cantarolando junto dela. Em poucos metros andamos milhas, e entrávamos para o culto de domingo à noite numa igreja da capital capixaba. Cumprimentei uns amigos de infância que passaram a congregar juntos nalgum dia que não me lembro e entreguei um convitezinho simples impresso em casa.
– Eu me caso amanhã!
– Sério? – arregalou os olhos a Nívea.
– É! – sorri alto.
– Mas, como assim? E seus pais?
– Decidimos hoje. Eles já esperavam.
– E vão viver de quê?
E eu corria pelos corredores da universidade. Ou por corredores brancos de algum hospital. Talvez da série House.
– Vamos viver de quê? Com o que vou comprar as calças de grife daquela menina? E se eu não conseguir comprar nescau pra ela? Ir morar de favor com a sogra e meus pais me bancando? Que casamento é isso? – a escadaria apareceu à minha frente e, ainda no primeiro degrau, senti a mão da minha menina apertando meus dedos.
Inspirei.
– Calma, cara. Você está na casa da senhorinha – soltei o ar.
Era segunda de manhã.
– O equipamento de som – apontou ela, sorrindo. Qualquer ordem daquela velha soava como a frase da sua vó te oferecendo uma bandeja de mangas descascadas.
Levantei uma caixa de retorno grande. E pesada – mas não muito, porque senão eu não conseguiria segurar. Fui caminhando.
– É pra descer com ela? É por aqui? – falei tropeçando em direção ao parapeito. E o “aqui” saiu atrasado, enquanto eu via aquela enorme e pesada caixa preta despencar do último andar da casa da minha velha amiga tão atenciosa, tão gentil, tão vovó de filme bonito e bobo de criança que parecia de mentira.
A caixa já era – merda! – pensei – lá se vai a grana do nescau.
– Liga pro Bryam – disse a Lorena, a doce velhinha ou a minha mente. E relaxei. Ele consertaria aquilo.
E na minha mente, então: alguém convidou nossos parentes? Os pastores sabem? Ela tá feliz de verdade? O que a gente tá fazendo? Não passei no concurso, não tenho emprego, não terminei a faculdade. Largo o curso? Trabalho com qualquer coisa? E se? E o? E quando?
Me sentei, ou invento que sentei. Ri, ou acho que ri. Acordei.
Peguei o caderninho com o título que não lembro e a ilustração de capa que eu tinha feito. Eram nossas anotações pra esse dia. Folheei. Era como o catecismo menor de Westminster, só que do meu romance. Uma pergunta, uma resposta simples. O começo? Como? Onde? Por quê? E, lá no fim, Quando vão se casar? Uma resposta mais comprida, com afirmações e explicações do dia, da hora, das nuvens no céu e do beijo.
– Foi por causa disso aqui que sonhei com o casório – pensei.
Acordei – ué?
Não tinha caderninho, não tinha casório. Eu só respirei aliviado e triste. Sim, triste. Nada de faculdade versus trabalho versus grife versus nescau. Mas nada de casamento também.
– Foi por causa de que que eu sonhei que sonhava por causa do caderninho?
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