Na sua própria terra

Na sua própria terra
Saí da lanchonete e me sentei nos bancos de espera. Num deles. A moça me disse que não tinham a latinha pequena de coca-cola e eu, que não tinha tanta, resolvi deixar a sede aumentar.
– Me dá uma lata de coca – voltei, cinco minutos de espera e suor depois.
Coloquei os dois e cinquenta sobre o vidro daquele balcão-freezer-vitrine que tem as latas e garrafinhas arranjadas na sua cara pra te matar de sede, catei minha coca-cola, abri e entrei no ônibus. Escolhi o segundo banco do lado esquerdo, na janela. Me disseram, um dia, que você passa menos mal quando se senta na frente, por isso o fiz. Errei drasticamente dessa vez.
–  O problema é que eu fico hospedado em Mariana. Aí eu tenho que vir pra Ouro Preto, depois pra Ouro Branco, pra depois pegar um ônibus pra minha cidade. E aí fica mais difícil.
Uma pausa pequena pra alguém responder do outro lado da linha. O cara falava muito e depressa. Ele sentou-se três bancos atrás de mim, do lado de lá, o que me dificultou o trabalho. Por isso a minha falha ao escolher chacoalhar menos durante a viagem.
– Pois então, é que eu quero estar em casa antes do dia vinte e um, porque todo mundo tem vontade de ser enterrado na sua própria terra, né?
Eu não sei dizer se não o ouvi falar uma próxima frase porque alguém respondia do outro lado e ele escutava ou porque meu sarcasmo me ensurdecia aqui. Mas, quando voltei a ouvir:
– Imagina só como vai ser em Nova Iorque, Los Angeles, Londres, nessas cidades grandes. Aqueles prédios enormes caindo em cima das pessoas. Eu não acredito muito nesse negócio de fim de mundo não, mas…
Não aguentei. Levantei, olhei pra trás. Não vi a cara dele porque o banco da frente e a pessoa que repousava a bunda sobre ele me obstruíram a vista do espécime que, mal pude crer, falava sério. O que vi foi o cara do banco logo atrás, rindo-se a quase gargalhar em silêncio como eu. E acabamos por rir juntos, uma daquelas coisas que quebram o gelo e podem te levar a uma cerveja num boteco qualquer com um novo amigo. Eu poderia até chamá-lo pra tomar uma num dia desses com a galera. E contaríamos gargalhando do cara do fim do mundo.
Mas aí eu lembrei que não bebo. E também que era muito provável que, uma hora ou outra, ele se mostrasse um idiota de quem eu e meu sarcasmo iríamos rir.
Melhor não.
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