Me deem licença – Parte 1

O Luther King dos Agregados

{ficcional}
Me deem licença - Parte 1 - O Luther King dos Agregados
– Me deem licença! – levantei a voz e o corpo sobre o sobrenome de todos assentados para o jantar, com os olhos percorrendo as caras, uma das sobrancelhas levantadas, a boca entreaberta e a língua tateando os dentes, escolhendo palavras.
Era uma enorme mesa dum sangue só. Bem, ali havia muitos sangues, mas a tal mesa pertencia – assim como os lustres, o jardim e as privadas da casa – a um sangue só, que era maioria, uma tradicional família cristã. E eu, que não me dava sem desgosto a tais ajuntamentos, fui pela alegria de minha esposa que sempre me trazia prazer – tanto a esposa quanto sua alegria. E, também, por considerar a possibilidade de que compartilhar daquela fé a que a maioria deles se apegava me trouxesse algum recreio naquela trincheira.
– Pois não? – pôs seu copo em minha direção a senhora com bobes no cabelo e vestido de festa que se assentava à cabeceira da mesa. O seu velho, do outro lado, permanecia sobriamente calado, como todos esperavam que fizesse, olhando fixamente pra mim. Ela, antes de me entregar a palavra, havia olhado para ele e recebido a bênção silenciosa num acenar de cabeça duro e sutil.
Ajeitei a gravata, segurei meu copo com a mão direita, como quem arguiria num leve tom soberbo – mesmo bebendo guaraná – e prossegui nas palavras que tinha escrito na memória na última madrugada enquanto analisava todos os olhos que me receberam em cada conversa até ali. E, claro, todos os pronomes com que me presentearam naquele natal, tanto aqueles que me disseram quanto os que ouvi dizerem.
– Meus amigos, permitam-me dizer algumas palavras.
Eu poderia falar, então, em nome de todos os que entraram para aquela família como eu, pelo casamento. Mas, na verdade, a mulher de um dos primos ali tinha engravidado, ainda sem nome, durante o carnaval e pagar a pensão custaria o mesmo preço só que sem sexo. O tio mais moço de minha esposa levava consigo uma prostituta. E um dos casais presentes, que trazia um filho pequeno, uma já moça e um yorkshire, era de amigos da família. No fim, considerando o que deduzi ao revisar aquelas quase trinta histórias mal contadas duma só vez ao me pôr de pé à mesa, percebi que falava só por mim, que entrei naquilo tudo por um romance e um altar. Mas, enfim, não me preocupava mesmo a situação dos outros.
– Minha querida segunda família! O que quero expor são coisas que me tomaram a mente essa madrugada.
Minha esposa me olhava surpresa, mas ainda tranquila. Ela nunca duvidava que eu fosse capaz de coisas como aquela, mas não esperava, nem de longe, meu discurso.
– Desde que cheguei aqui, ontem pelo fim da tarde, enquanto uma bela luz laranjada coloria a pele de nossa querida avó que veio me receber no jardim, todos vocês foram muito educados. A casa é grande, me arranjaram um bom quarto e boa comida. Me trataram polida e gentilmente e da hospitalidade não tenho nada a reclamar. Contudo, minha esposa, sangue do seu sangue, sabe bem qual meu esforço em estar aqui. Não tenho afeição alguma a reuniões de família nem mesmo entre os meus e, na casa de outro nome, então, há ainda piores desgostos.
Todos, inclusive o cachorro e a tia cega, olhavam pra mim. Alguns franziam a testa, outros, os lábios. Uns torciam o nariz, minha esposa torcia meu braço. Ora, um agregado resolveu reclamar. O velho chefe daquela família, disfarçadamente, sorria pra mim. O conheci há uns três anos, no meu casamento. Ele era como eu, tanto que só o conheci, avô de minha esposa, numa data assim. Na ocasião, me percebeu desajustado no meio da festa, que era como aquela, e me chamou num canto depois do jantar. Falou de si e me contou um antigo desejo, muito parecido com aquilo que eu fazia agora.
– Cada um que entra pra família como eu, não é, para esta casa, um novo membro, mas um apêndice.
Agora eu era o Luther King dos Agregados. Todos olhavam pra mim sorrindo. De leve pra não dar na cara, claro.
– Mas não há ninguém como eu nesta mesa. Digo, não há ninguém em posição tão nobre nesta casa como eu, que entrei para esta família no mais doce amor, em castidade, no altar.
Eu precisava dizer aquilo sobre a castidade, apesar de não ser por ela que eu considerasse a nobreza de meu lugar e nem fosse ela o meu argumento. Mas era um detalhe do meu casamento que todos sabiam ser verdade e que faria esmorecer o sorrisinho besta dos outros agregados que eu, como já disse, não considerava representar. E aquele esmorecimento lento me trouxe riso por dentro. Matei sonhos de liberdade, mas, afinal, eu não poderia doar, com tanta benevolência, tão bons argumentos a pessoas que nem ao menos os compreenderiam o português.
– Mas quem você considera ser, se não um soberbo agregado?! – gritou avermelhado um dos primos. A propósito, um bastardo.
Bem, o que vim a dizer foi a prova de que não era soberba que me encharcava, mas lucidez. E algum sarcasmo, confesso.
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