Uma Coca e uma venda, por favor

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– Pra beber?
– Uma Coca.
– Lata ou copo?
– Quando é a lata?
– 4.
– E o copo?
– O de 300 é 3,50. O de 500 é 4. E o de…
– Me dá um de 500. E um suco de… de quê, querida?
– De maracujá.
Paguei, sentei e comia com minha namorada enquanto conversávamos e ríamos do sincronismo entre o vídeo mudo dos sanduíches sendo preparados que ficava passando na tevê do Subway e a música Sem radar do LS Jack que tocava no radinho das moças do balcão.
Eu ainda terminava de comer quando dois moleques apareceram na porta. Eram quase onze da noite. Eles eram pretos¹ e estavam sujos. O mais novo, de 7 anos, pedia um sanduíche. O outro, de 13, pedia grana pra, segundo ele, pagarem moto-táxis pra irem pra casa.
Como respondi a eles não faz diferença agora. Mas depois de deixar a lanchonete, eu tinha muito a explicar a mim mesmo. É que meu pensamento mais insistente no caminho de volta era:
– Por que eu não fiquei na minha cidade²?
E é perturbador saber que eu também preferiria não ver.

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Já fazia um tempo que eu não escrevia uma crônica. Ainda mais uma que me acusasse de, no fundo, não estar muito longe dos amigos que eu preciso reconsiderar porque votam Aécio. Você já leu outras das minhas crônicas?
Só espero que não façam uma associação desonesta entre não querer ver o pobre, como no meu texto, e a saída do Brasil do mapa da fome da ONU. Estamos tratando de situações diferentes. Graças ao bom Deus (que eu vejo agindo através das pessoas), a fome não é mais um problema estrutural no país. Mas ainda existe quem esteja faminto.
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Notas:

¹ Se você não costuma ler meus textos, pode estranhar. Eu quase sempre escrevo preto porque, pra mim, branco é do mesmo conjunto de palavras de preto. Se eu falasse alvo, diria negro. Não acho a palavra preto pejorativa. Não a uso de forma pejorativa. Acredito que colocaram nela um teor pejorativo e, ao utilizá-la de outra forma, contribuo mais para mudar seu sentido deturpado do que se a evitasse. Como mostrar que preto e branco são iguais se não posso usar a palavra preto ao lado da branco ao me referir a pessoas? Se você discorda disso, principalmente se você faz parte do movimento negro, eu ficaria muito grato se pudesse me ajudar a melhorar minha visão.

² Eu não moro numa metrópole. Em minha cidade, pedintes não são comuns. Na verdade, quando você vê alguém pedindo grana, geralmente é forasteiro. Não que não hajam pobres e você não os encontre pedindo grana na praça às vezes. Mas, em vista de cidades grandes, é muito raro.

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2 Respostas para “Uma Coca e uma venda, por favor

  1. Acho que a questao da igualdade entre preto e branco nao ta na palavra preto em si. Mas no fato de que vc nao descreveu sua namorada como branca, ou o atendente do bar como branco. No meu ponto de vista (mas posso estar enganado) quando vc nao descreve branco como branco, mas soh preto como preto, eh meio pq, mesmo que inconscientemente, pra vc:
    – ser branco eh o normal e, portanto, nao precisa ser descrito.
    – ser preto, japoneis, gordo etc., eh anormal e precisa ser descrito para que as pessoas nao pensem o contrario.
    No caso da sua historia, aparentemente o fato de serem pretos soh faz diferenca pq a maioria dos pobres eh preto. Entao na real vc usou preto querendo dizer que eram pobres para complementar o “sujos”. Talvez eu esteja errado mas mesmo que nao intencional, usar o preto nesse sentido carrega sim um certo preconceito…
    Mas enfim, texto muito bacana e sei exatamente como vc se sentiu. Eu pelo menos quando passo por isso fico angustiado de nao poder fazer nada por essas pessoas.

    • Roberto, sensacional seu comentário, cara! Mas meu uso da descrição da cor só para os meninos foi proposital aí. Eu já imaginava que um comentário como o seu chegaria. E sim, ele mostra meu preconceito. Mas também mostra o preconceito de quando lemos um texto assim e não reparamos nisso. Comentei que eles eram pretos também pra insinuar que estamos acostumados com a relação “pobreza” x “cor da pele”, mas, logo em seguida, disse “estavam” sujos. Os verbos “ser” e “estar” poderiam ser suprimidos do texto, estilo que gosto de usar. Mas fiz questão de colocá-los pra, mesmo depois de exteriorizar meu preconceito, tentar lutar contra ele. Quantos aqui imaginariam que os moleques poderiam ser brancos se eu não colocasse a cor? É osso, cara. De qualquer forma, seu comentário deixou esse texto muito mais legal agora. Valeu!

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