Capítulo Um

detail of Old Vintage Typewriter: chapter one
– Sai.
Ele fingia bem aquele respeito. Nunca dizia uma palavra, nunca batia o pé. Obedecia. Mas o silêncio lento com que se virava e saía era só um soberbo:
– Vá se foder.
Vez ou outra, entrava em casa. Fora isso, nunca sabia quando ele estava. Não dava satisfações e nem pedia. Comia na rua e, às vezes, dormia por lá. E tinha lá seus amores. Eu mal o via. E, pensando bem, não fazia assim tanta questão.
– Ainda não sei por que tenho um cachorro – pensei alto em voz baixa, como é pensar alto.
Eram seis e pouca da manhã. Eu não fumava um cigarro e nem lia o jornal.
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Às sete e quinze, eu batia à porta de uma casinha bonita com jardineiras nas janelas. Bem, eram sete e treze, mas quem usa relógio analógico costuma fazer conta só com múltiplos de cinco, de acordo com o quanto se considera atrasado ou paciente.
– Bom dia, Amélia.
– Bom dia, meu filho. Como dormiu?
Calei um “mal” enquanto entrava. Foram uns quatro passos entre aquele ponto de interrogação e o beijo que dei em sua mão antes de me sentar. Amélia se levantou da pequena mesa redonda que se apertava no canto da cozinha, catou a caneca de água que fervia, passou o meu café e fez o seu chá, enquanto cantarolava algum antigo hino protestante inglês que tinha aprendido com seu pai. Sentou-se à minha frente sem pressa, sorriu de leve e entrou pelos meus olhos com o mar azul claro que eram os dela, até encharcá-los.
– Eu trouxe aqueles biscoitos de ameixa que você gosta – fechei a escotilha.
– Kricles! – ela gritou, retocando com chá a pintura do teto. Jogar os braços pro alto gritando e alargando um sorriso enorme por causa de biscoitos de ameixa era a forma que aquela velha tinha pra dizer “tudo bem, deixa isso pra lá que eu quero te ver cantando”.
Amélia sempre vivia primaveras. Não me lembro de um dia sequer de nuvens sobre seus olhos. Claro, ela tinha seus dias de chuva. Mas nunca a vi nublada até o entardecer. Ou mesmo fria com uma garoa que não passasse. Suas chuvas eram de verão. E ela sempre dava um jeito de espalhar logo as cortinas do céu e deixar o sol tomar tudo que precisasse se aquecer. Sempre foi assim, mesmo quando perdeu sua única filha. Nela que a primeira camélia floresceu depois que a enxurrada levou os jardins de todos ao redor. E eu me deixava levar em todas essas coisas. Talvez, pra largar mesmo pra lá. Tomar café amargo com ela me adoçava um pouco.
– Só um minuto, Amélia, preciso mijar.

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É o seguinte. Escrevi isso há um ano e meio, mais ou menos. Precisa ser revisado e corrigido. A ideia era continuar e ir indo até dar umas 300 boas páginas, vender, ganhar o pouco dinheiro que escritores normais ganham e tal. Mas parei porque não consegui seguir na época. Achei isso aqui e resolvi postar. O que cês acharam?

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